QUERO MORAR NO BUTÃO

por Gilmar Marcílio

Dizem, e me parece quase inacreditável, que a população do Butão, uma minúscula nação situada na encosta da Cordilheira do Himalaia, tem um governo que inclui em sua plataforma política o tema da felicidade. A FIB (Felicidade Interna Bruta) é um medidor adotado pelas autoridades locais para avaliar o grau de satisfação existencial de seus moradores. Segundo eles, o PIB (Produto Interno Bruto) avalia apenas a movimentação do dinheiro, deixando de considerar aspectos importantes do desenvolvimento cultural, psicológico e espiritual humano. Essa sociedade, influenciada pelos princípios do Budismo, resolveu acrescentar em sua Carta alguns preceitos que soariam quase risíveis se comparados aos nossos. Mas faz todo o sentido do mundo.

Às vezes eu me pergunto se existem pressupostos universais que possam ser considerados como definidores do bem-estar humano. Assim que conseguimos o básico – casa, comida, saúde, emprego e, para os mais exigentes, amor –, esbarramos nas buscas individuais. Não dá para pensarmos em estatísticas. Até porque a maioria das pessoas raramente para e se pergunta se a vida poderia ser um pouco melhor. Simplesmente vai tirando do bornal um dia depois do outro, como uma mercadoria barata de que se pode dispor eternamente. É preciso que algo mais contundente, um choque de realidade, por assim dizer, faça com que acordemos dessa letargia que toma conta de nós. Olhar para dentro de si e ver se somos felizes ou não pode ser assustador.

Na ausência da fórmula ideal, resta o conhecimento que os grandes mestres nos legaram: colha o momento – lição batida e que começamos a esquecer já no princípio da nossa vida. Mas é o que nos sobra. Domingo passado acho que cheguei perto disso. Amigos de São Paulo foram me visitar. A tarde, carregada de um cinza melancólico, poderia ter nos levado a ficar dentro de casa, recolhidos, reclamando desse tempo que nos roubava o sol há tantos dias. Porém, assim que a chuva diminuiu, convidei a todos para irmos até o pomar, colher os pêssegos que já deviam estar maduros. Ao chegarmos perto das árvores, com seus galhos pendendo em veludo vermelho, nos detivemos num silêncio quase religioso. Cada um a seu modo se deu conta de que estava diante de algo sagrado. A sensação de degustar a polpa macia das frutas nos reconciliava com todas as nossas dores, como se, por alguns momentos, cada um tivesse reencontrado o paraíso perdido. E então, Merita disse: “Morri, só pode ser isso. Morri e estou no céu”. E rimos, no mais puro encantamento.É apenas um exemplo, a reafirmação de que o estado de atenção é fundamental para que saibamos acolher o que realmente nos faz feliz. Cada um pode contribuir para a manutenção da felicidade interna bruta. Da sua, que também será a dos outros. Mas somos animais de raciocínio lento. Um despertar provisório não significa uma mudança.

Talvez não seja fundamental morar no Butão. Talvez seja necessário saber simplesmente que, tanto lá como aqui, é possível incluir outros valores na nossa matemática de vida. E subvertê-la. Os milhões podem ser cortados pela metade e mesmo assim o saldo continuará crescendo. É preciso buscar a felicidade em outra folha de registro.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

0 comentários:

DIGA-ME COM QUEM ANDAS

por Gilmar Marcílio

Não há neutralidade na vida. O encontro mais fortuito pode determinar uma mudança radical em nossa forma de ver e pensar o mundo. Os amigos que escolhemos, nossos amores e mesmo aquele breve contato com desconhecidos vão moldando nossa maneira de ser. Portanto, há que se ter cuidado ao tecer a teia de relacionamentos com a qual vamos nos construindo como seres humanos.

Pessoas melancólicas que se aproximam acabam reforçando essa visão da realidade. Que poderia ser só uma referência, algo cambiante e que acaba mudando ao sabor das circunstâncias. A cada dia somos apresentados a desafios que exigem de nós não apenas coragem, mas sobretudo um olhar claro sobre as decisões que precisamos tomar. A resposta será fortemente influenciada por aqueles que atravessaram o nosso caminho. Sempre. O que somos resulta do que sentimos. É uma prisão, mas pode ser provisória e depende bastante de atenuarmos o que fica comprometido pela presença do outro.

Pessoas felizes, igualmente, procuram reforçar o modo como fazem sua leitura da existência. É o velho jogo de espelhos, só que muitas vezes acabamos confundindo o real com a imagem refletida. E, um belo dia, quase sem perceber, estamos agindo exatamente igual ao vizinho ranzinza que só vê o lado negativo de tudo ou, ao contrário, ao colega que parece ter acoplado nele um pequeno motor que gera alegria. Como a maioria de nós oscila ora para um lado, ora para outro, não custa nada prestar mais atenção àqueles que, em última instância, também são responsáveis por aquilo em que nos transformamos.Como não nos é dada a possibilidade de viver mais do que uma vida, fica difícil saber o que poderíamos ter sido. “Eu sou assim, fazer o quê?”, dizemos para nós mesmos, e essa sentença determinista acaba encerrando um orgulho de vencedor. Mas o fato é que muitas coisas podem ser alteradas. Seja aos cinco ou aos 80 anos. E isso costuma acontecer à revelia de nossa vontade e mesmo do nosso lado racional. O molde começa a ser trabalhado cedo. Erramos ao só olhar para ele depois que já está seco.

Não tenho dúvida: eu seria outro, completamente outro, se não tivesse sido influenciado pela maneira de ver e sentir de todos com os quais convivo. Eles são responsáveis pela minha história pessoal. Mais do que isso: minhas noções éticas, morais, afetivas e mesmo religiosas provêm desse entrelaçamento de ideias que ocorre o tempo todo. Eu não sou, eu resulto. Em outras palavras, o velho ditado “diga-me com quem andas e eu te direi quem és” não é apenas uma simplificação. Ele traduz uma verdade inexorável: acabamos nos parecendo sempre com aqueles que estão próximos de nós. Como Zelig, o famoso personagem criado por Woody Allen, adquirimos muitas características alheias e formamos uma bricolagem que define nossa identidade.

A pluralidade de relacionamentos nos enriquece e possibilita uma perspectiva mais ampla sobre tudo o que praticamos. É bom evitar a armadilha de só procurar os iguais.

Criamos dependência, precisamos dos outros. A nossa responsabilidade é apenas parcial quando nos entregamos às derrotas ou reagimos positivamente às alegrias. Todos respondem pelo que somos ou deixamos de ser. Ninguém passa impunemente por esse contágio emocional.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

0 comentários:

SÍNDROME DA ACESSIBILIDADE

por Gilmar Marcílio

Tenho me esforçado para aceitar com mais tolerância as inovações que o mercado despeja na nossa cara a cada dia. Mas não é fácil. O que era novidade ontem é visto hoje como item de museu. Luta inglória essa, a de ficar resmungando contra o novo, mesmo que em voz baixa. Penso nas inúmeras dificuldades que a vida cotidiana deveria apresentar há 100, 200 anos e me conformo. Vou seguindo o ritmo das coisas, mas sempre com um olho crítico de prontidão, que não me agradam as manadas, os currais.

Porém, há algo que me incomoda particularmente nessa história e que um amigo chamou certeiramente de síndrome da acessibilidade. É preciso que tudo esteja disponível o tempo todo, de preferência no menor espaço físico possível. Vamos colocar o mundo dentro de uma área de poucos centímetros quadrados. Se a internet não funciona, é o caos total. Se em determinado local não conseguimos obter sinal em nosso celular, é o caso de deixar as pessoas esperando, ir até a rua em busca de conexão e ver se há alguma mensagem, se alguém ligou. Até alguns anos atrás, esperar uma semana ou dez dias por uma carta era a coisa mais natural. Aliás, era poético, deixava em nossa alma uma expectativa, um silêncio de suspensão. Agora não, tudo é contado em minutos. Ligaram, tem que retornar. Recebeu uma mensagem, pare tudo o que estiver fazendo e corra para responder, pois deve ter alguém do lado de lá aguardando desesperadamente por sua resposta.

Agimos como se a existência se organizasse e dependesse de uma ínfima fatia de tempo. Um grande ensinamento que colho sempre que estou em minha chácara é aprender a respeitar o ritmo das coisas. Na natureza nada pode ser forçado. Aliás, pode, mas sempre com resultados desastrosos. Tudo flui como deve fluir, fazendo eco à famosa sentença: não apresse o rio. Por pensar assim, devo seguidamente passar a imagem de uma pessoa mal-educada. Sempre que possível retorno logo as ligações perdidas, mas não necessariamente trinta segundos depois. Idem para os e-mails recebidos. Não creio que a ordem universal sofrerá um abalo significativo com isso.

Ter tudo ao mesmo tempo, sempre. É uma divisa de nossa época que acaba deixando em nós um gosto de saudade. Pelo menos em mim. Que alegria esconder-se vez que outra, deixando que apenas suspeitem o que estamos fazendo. Não quero estar conectado dia e noite, ininterruptamente. Morro de pena desses todos que andam por aí, acessados continuamente na rede, sem descanso. Apesar disso, creio que a inteligência não precisa excluir nada do que a tecnologia pode oferecer. O melhor exemplo se encontra na medicina. Não está nos meus desejos secretos ter a barriga aberta a seco e muito menos um dente arrancado com boticão. Viva o laser, a anestesia e toda a parafernália que ajuda a diminuir a dor. Mas, por favor, vamos com menos sede ao pote.

Deveríamos, ao menos uma vez por ano, fazer uma terapia de choque: uma semana de convivência apenas com nós mesmos e com as pessoas que queremos bem, longe de jornais, internet, celulares. Desligar-se, percebendo outras formas de relacionamento. Aprecio as novidades, mas não os excessos. Sempre os achei perigosos.

Quero pertencer à turma dos modernos, mas não pretendo rivalizar com Deus.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

0 comentários: