E quem não gosta?

por Gilmar Marcílio

Na base dos rituais está este pensamento: se todo mundo vai, por que eu iria fazer diferente?

Ai de nós, os poucos, pouquíssimos, que não entram em êxtase quando a palavra praia é pronunciada. Essa pequena turma de esquisitos que prefere a tranquilidade, que foge do barulho, do excesso de gente. Porque é só dar uma espiada no que acontece nestes meses de verão no litoral para descobrir que descansar não é exatamente o que a maior parte das pessoas faz. Entre os preparativos, a acomodação na casa ou apartamento, a visita de parentes e amigos e a necessidade de cumprir um roteiro que não lembra em nada o de um mosteiro zen, lá se vão muita energia e força física. Sem falar na única refeição do dia – a que começa as oito da manhã e se estende até a meia-noite.

Louvemos os que verdadeiramente sentem prazer em passar as férias se lambuzando de areia, sal e sol. Mas ando desconfiado que muitos cumprem esse programa mais por não querer agir na contramão da maioria do que verdadeiramente pelo prazer que desfrutam nessas temporadas. Sim, sempre há a possibilidade de se isolar com um bom livro, de encontrar amigos que não víamos há muito tempo, essas coisas. Só que eu vejo tantos voltarem tão exauridos que nem ouso perguntar se foi bom.

Acho que na base está este pensamento: se todo mundo vai e diz que gosta, por que eu iria fazer de outra forma? Adoramos rituais. Nosso comportamento segue mais ou menos o mesmo padrão, do nascimento à morte. Mas não é preciso exagerar. Andamos meio preguiçosos e garimpar alguma coisa diferente dá muito trabalho. Então, vamos seguir a tendência e deixar que escolham por nós. O problema é que não pensar por conta própria torna a vida muito entediante.

Ser original ou, ao menos, não se tornar adepto do que está em evidência cobra lá o seu preço. É preciso ficar explicando o tempo todo por que não gostamos de fazer isso ou aquilo. Olha o coitado que não passou o Natal com a família, que não abraçou dezenas de pessoas no Ano-Novo. E aniversário sem festa? Horror dos horrores. Às vezes a gente encontra certa compreensão dentro da família, o que é uma bênção. Precisamos desentranhar uma força quase sobre-humana para não ceder a tantos apelos. Até porque, neste período do ano, somos bombardeados com propagandas lacrimosas até o limite da intoxicação.

Não duvido que muitos se divirtam comprando o pacote promocional do mês. Só seria interessante que alguns colocassem ao menos um ponto de interrogação nessas escolhas, antes de informar o número do cartão de crédito. Ou corremos o risco de ser teleguiados a uma paisagem que talvez não seja nossa preferida.

Melhor parar por aqui. Não pretendo sofrer inquisição pública. Fica apenas a sugestão para olharmos dentro de nós mesmos e descobrir o que de fato queremos. Voltando ao tema praia, nem todos apreciam passar semanas fazendo rigorosamente a mesma coisa. Ou seja, nada. Acordar, tomar café, pegar a toalha de banho, passar protetor, esticar-se na areia... É esquisito, bem esquisito, mas alguns preferem declinar de convites que os transformem em bifes à milanesa. E passam a bola na hora de cantar o jingle bells, o parabéns a você ou de chorar em casamentos. Talvez um bom terapeuta possa explicar casos assim.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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Uma única vez

Por Gilmar Marcílio

O que poderia ter sido e não foi é a causa de quase todos os nossos tormentos
Sempre estranhei o fato de as pessoas dizerem que quem costuma ler muito está fugindo da vida. Acredito que seja exatamente o contrário: é quando lemos que encontramos o centro de nossa existência, deixando de lado muitas distrações que convencionamos chamar de fatos importantes. Um bom livro nos envolve de tal maneira que podemos dispensar quase tudo. Absorto numa história instigante ou numa reflexão mais densa, esqueço do mundo. A única paisagem que vejo é a que encontro ao folhear as páginas em busca de novos amigos, personagens que me acompanharão pelo resto dos meus dias.

Vez que outra isso se torna tão intenso que é quase impossível não dividi-lo com os outros. Vou fazer isso agora. Terminei de ler o magnífico romance O Mundo Pós-aniversário, da americana Lionel Schriver, escritora que já havia me impressionado muito com o perturbador Precisamos Falar Sobre o Kevin. Se me fizessem a clássica e batida pergunta sobre quais livros eu levaria para uma ilha deserta, tenho certeza de que os dois estariam na lista. Fato é que não se pode passar incólume pelo texto dessa grande analista do comportamento humano.

Depois de quatro dias de leitura quase ininterrupta, muitas percepções que eu tinha sofreram uma mudança radical. É isso: um bom livro muda a vida da gente. Aqui temos a história de Irina, ilustradora de livros infantis que, num determinado momento, se sente impelida a beijar um amigo de seu marido. Só que esse gesto quase banal pode ter repercussões imprevisíveis. E é essa questão que a autora trabalha com maestria inigualável. Um ato aparentemente insignificante alterando o rumo inteiro de nossa existência.

O problema é que nunca vamos saber disso, porque nada se bifurca, não podemos viver duas vidas paralelas. Tudo acontece uma única vez. Só existe o concreto, o que celebramos meio distraidamente nas dobras do dia. Mas como gostaríamos de espiar o caminho que não foi escolhido!

O que poderia ter sido – causa de tantas angústias que nos torturam anos a fio, em pensamentos reiterados sobre a não escolha. Lionel mostra esse desdobramento. Para concluir que não existe o melhor, não existe o mais correto. Cada um faz o que pode, o que sua estrutura emocional permite quando as coisas acontecem. Se toda decisão implica numa renúncia, também é verdade que sempre elegemos o que nos parece mais plausível à luz da consciência do momento.

Uma pequena vitória agora pode se revelar uma derrota avassaladora mais adiante. Uma perda também pode ser sinônimo de libertação. Não temos como prever os significados que só o tempo trará. Cabe-nos a aceitação. E a coragem de celebrar uma rotina que pode ser sagrada, pois é dentro dela que desenhamos o nosso mundo.

Tendemos a ser pequenos, previsíveis, resvalando quase sempre para o ordinário. A grandeza talvez se esconda exatamente aí, na capacidade de transformar o banal em algo grandioso. Em aprender a viver o que é nosso.

“Pode-se passar um tempo terrivelmente longo esperando a chegada daquilo que se teve desde sempre, como quem tamborila os dedos à espera de uma entrega, enquanto o embrulho aguarda pacientemente fechado do lado de fora da porta.”


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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Sessão de autógrafos do livro Pra Ser Sincero em Bento

Em comemoração aos 25 anos da banda Engenheiros do Hawaii, o músico Humberto Gessinger estará em Bento Gonçalves no próximo dia 12 de janeiro, terça-feira, às 19h30min, no Shopping Lamérica, para uma sessão de autógrafos do livro Pra Ser Sincero: 123 Variações Sobre Um Mesmo Tema (editora Belas-Letras, 2009). A entrada é gratuita.

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Gessinger autografa em Caxias do Sul

Em comemoração aos 25 anos da banda Engenheiros do Hawaii e com patrocínio da Commcenter, o músico Humberto Gessinger estará em Caxias do Sul no próximo dia 13 de janeiro, quarta-feira, às 19h30min, no espaço Lifestyle do Shopping Iguatemi Caxias, para um pocket-show especial, seguido de uma sessão de autógrafos do livro Pra Ser Sincero: 123 Variações Sobre Um Mesmo Tema (editora Belas-Letras, 2009). A entrada é gratuita.

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Humberto Gessinger autografa em PoA

Em comemoração aos 25 anos da banda Engenheiros do Hawaii, Humberto Gessinger fará um pocket-show especial no dia 11 de janeiro, segunda-feira, às 20h, no Hall do Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre, seguido de uma sessão de autógrafos do livro Pra Ser Sincero: 123 Variações Sobre Um Mesmo Tema (editora Belas-Letras, 2009). A entrada é gratuita.

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